Uma caneta e um
papel são suficientes para registrar nessas entrelinhas os sentimentos que
gritam na minha alma latente.
Nesse primoroso
instante em frente ao espelho vejo refletir um rosto jovem, formoso de traços
finos em uma pele viçosa com feições enigmáticas e um olhar tão profundo que
nem ao menos consigo me encontrar nessa vastidão do meu eu...
Por um ímpeto
espaço de tempo a insanidade parece me possuir, procuro incessantemente dentro
de mim respostas as quais vão além da envergadura humana aclarar. Quem sou? O
que vim fazer aqui? Por que existo? Por quanto tempo hei de existir? E para que
existo?
Meu profundo olhar
não me diz exato quem sou eu, tão pouco o que quero. Mas se fechar meus olhos
posso passear dentro do meu abarrotado cavo mundo interior. Ainda assim é
inútil desembaraçar meus pensamentos abstrusos e decifrar os desejos do meu
coração, porém, tenho a leve impressão destoar da maioria padrão.
Não posso explanar
esse sentimento forte, impreciso que vive no meu ser desde o nascituro que externiza
ao mundo uma energia divergente e refracionada do meu âmago.
Sem compreender o
sentido dentro de mim, me norteio em parâmetros e estereótipos da sociedade
moderna, às vezes sendo preciso ocultar, adormecer, esquecer parte do que está
presente na minha alma dúbia.
Sempre me deparo em
um ângulo de 360º graus, uma força gravídica que me arrasta sempre ao mesmo
ponto de partida, me faz reviver os momentos, os lugares e as mesmas dores.
Medito mergulhando
nos sentidos, se tudo acontece porque sempre perseguimos inconscientemente o
passado atraindo repetições infindáveis, ou ainda não fui capaz de aprender e a
vida insiste em me trazer tudo novamente até que a aprendizagem se finde,
podendo enfim me conhecer para viver de acordo com meu imo.
Retornando a origem,
consegui resgatar sensivelmente pedaços imaculados da infância, quando tudo
parecia gigante e fascinante. Pude sentir o gosto da simplicidade e o prazer da
brincadeira tão só por refletir a imaginação de uma criança repleta de sonhos e
esperança, quando ainda estava incólume a construção do seu castelo.
Fico feliz por
ainda ver essa criança, mesmo nas reminiscências nostálgicas, perceber que
existem restos deste castelo, que ainda pode ser reerguido... Tal, primeiro
ponto para meu reencontro.
Todavia, vez por
hora o medo açoita e assombra a criança frágil e bucólica, monstros começam a
saltar da imaginação adotando forma real de seres humanos.
O medo de machucar jugulou
o melhor que havia em mim e para defesa pessoal a criança foi forçada a
crescer, se transformou em guerreira deixando o castelinho de sonhos no chão
para travar a guerra. Mas como toda guerra é sangrenta e dolente, sinto vontade
de regressar aos monstros da minha imaginação, onde o medo era abstrato e inofensivo.
Quisera eu ser
gente grande para me defender e lutar; criança para viver e amar!
O que pode o
espelho refletir-me a não ser um rosto enfadonho, um coração despedaçado e uma
alma quebrantada?
Seqüelas da
convivência com seres tão superficiais incapazes de acreditar nos sonhos, tão
pouco sentir o mais tênue amor ao próximo... Seres sem história própria, robôs
de destino predeterminado por uma sociedade anárquica capitalista. Apáticos, sorumbáticos
e ínvidos. Não partilham do cálice alheio, mas também não desfrutam da afeição leal
e desinteressada. Nunca terão a graça da autenticidade. Jamais poderão ser singulares.
Não querem, não podem e não sabem o esplendor de viver intensamente, quão
leviano não sente, camufla na aleivosia.
Ora, não sou eu que
pretendo findar meus dias nessa morbidão tediosa, correndo para não ser eu,
sentir como se não sentisse e fugir de viver minha própria história.
Se acaso não conseguir saber quem sou, ao
menos terei amado com imensidão e vivido como ninguém...
(by Ingrid
Raiane de Mattos)

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